Desde o início do projeto Artesanato de Fibra RS, tínhamos o desejo de conhecer mais profundamente os processos de produção artesanal indígena em nosso Estado. No escopo da pesquisa, aproximamo-nos do povo Guarani Mbya, que expressa sua ancestralidade através da cestaria feita com a fibra da taquara (takua). Ainda que este estudo seja inicial e não abarque a diversidade dos povos originários do Rio Grande do Sul — como Kaingang e Xokleng, que trabalham com cipós e outras fibras —, a experiência com as mulheres da Retomada Nhe’engatu abriu caminhos potentes de escuta, aprendizado e partilha.
Nossa visita se dividiu em duas fases. Ambas foram intensas: no primeiro dia da pesquisa de campo que aconteceu em novembro de 2024, primeiro dia acompanhamos a colheita da taquara brava na mata, caminhando com o grupo de indígenas que nos guiava pelo território. Não apenas observamos — fomos convidadas a participar, a colher junto delas, a experimentar o peso e a precisão do gesto. Ao fim desse dia, recebemos um convite inesperado: acampar na Retomada.
Foi então que a segunda visita aconteceu semanas depois, em janeiro de 2025. Chegamos ao final de uma tarde de sexta-feira para acamparmos na aldeia, e passarmos a noite lá. A noite foi uma experiência rica, onde pudemos ouvir cantorias ao redor da fogueira, vivenciando a simplicidade e a força do cotidiano coletivo. Entre as conversas do grupo, o cacique Eloir nos lembrou que o conhecimento do trançado não pode ser guardado para si. Ele vai passando de geração em geração e se mantém vivo. Não há livros, há rodas de conversa. Não existe manual de como fazer, de quando colher, de em que época trabalhar a fibra. O saber nasce da convivência, da escuta e da prática partilhada. Essas palavras reafirmaram o que já havíamos sentido na primeira vivência: o artesanato Guarani é mais do que técnica — é memória viva, transmitida pelo encontro, pelo tempo partilhado e pela força da coletividade.
Ao amanhecer, iniciamos o dia colhendo melancias, ainda com o orvalho sobre as folhas, tomamos café da manhã ovos com uma mistura de farinha e óleo. Após o café da manhã, acompanhamos a confecção de um cesto pelas mãos da artesã Nilza.
Durante a feitura do cesto, percebemos que o tempo ali corria diferente — era o tempo da fibra, o tempo da partilha, o tempo da escuta. Essa experiência, tão concreta e ao mesmo tempo tão simbólica, revelou muito mais do que técnicas artesanais. Mostrou-nos a íntima relação entre as mulheres Guarani, a mata e o território. Cada cesto confeccionado não é apenas objeto: é artefato de conhecimento, memória e resistência. É também expressão da coletividade, já que o saber-fazer não pertence a uma pessoa, mas ao grupo, à comunidade, à ancestralidade que segue pulsando.
Estar na Retomada Nhe’engatu foi uma descoberta em múltiplas camadas. Descoberta da fibra e de suas técnicas de manejo, descoberta de histórias de luta pela terra, descoberta de uma forma de viver em que cultura, espiritualidade, educação e economia se entrelaçam, assim como as fibras da cestaria.
Saímos de lá com a sensação de que cada cesto, cada cantoria ouvida sob a noite estrelada, foi também um chamado para repensarmos nossos modos de estar no mundo. Porque, para as mulheres Guarani da Retomada Nhe’engatu, o artesanato não é apenas ofício: é presença, é resistência e é futuro.
Texto: Tatiana Laschuk / Fotos: Jefferson Botega


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