Maria Helena: de tudo que a terra dá, nascem fibras, memórias e futuros

Chegar até a casa de Maria Helena, em Morro Redondo, no interior do Rio Grande do Sul, não foi simples: caminhos de terra, sinal frágil de GPS e uma paisagem de serras e campos que guardam um tempo próprio. Mas foi justamente nesse lugar, de difícil acesso e de imensa beleza, que encontramos uma artesã cuja criatividade floresce em diálogo direto com a terra, a água e a memória.

Maria Helena vive em um sítio recém-adquirido com sua família e, de lá, transforma fibras vegetais no que mais lhe dá prazer: o artesanato. Nossa visita tinha como objetivo conhecer seu trabalho com a fibra da bananeira, mas logo percebemos que o universo de Maria Helena é muito mais amplo. Em suas mãos, a multiplicidade de fibras se converte em múltiplas possibilidades de expressão, cada uma carregada de sentido e história.

O artesanato como cura e destino

O encontro de Maria Helena com as fibras foi também um encontro consigo mesma. Após a perda de sua irmã, há 22 anos, ela encontrou no artesanato um caminho de cura para a dor da depressão. Incentivada por uma amiga, que enxergou na tradição de sua família uma possibilidade de terapia, Maria Helena retomou práticas que já conhecia de infância e passou a se dedicar à confecção de cestos e trançados. O que começou como um gesto de sobrevivência emocional transformou-se, pouco a pouco, em ofício, paixão e modo de vida.

A peça que marcou esse recomeço foi feita com ponto africano – um saber transmitido por sua mãe e ressignificado por Maria Helena em sua própria trajetória. Desde então, ela buscou cursos, formações e parcerias, sempre com o apoio do marido e dos filhos, que seguem ao seu lado. Hoje, o artesanato não é apenas terapia, mas trabalho, orgulho e identidade.

Heranças quilombolas e indígenas

A multiplicidade de fibras com que Maria Helena trabalha – bananeira, taboa, milho, costela de adão, embira, cipó, entre outras – reflete não só sua curiosidade criativa, mas também sua ancestralidade. De sua mãe, herdou a origem quilombola; de seu pai, a indígena. Essa dupla herança molda seu olhar inquieto e sua habilidade em experimentar combinações improváveis.

Seu avô, que se dizia Guarani, trabalhava com bambu e cipó, e a família produzia chapéus, chinelos de fibra de bananeira e até bonés – peça que ainda hoje Maria Helena sonha em recriar como homenagem a ele. Essas memórias de infância e de família são fios que atravessam seu trabalho, costurando identidade, pertencimento e continuidade cultural.

Resistir pela fibra

Durante as enchentes de maio de 2024, Maria Helena perdeu sua plantação de orgânicos e suas bananeiras. Mesmo sabendo que o terreno não é o mais propício para o cultivo, insiste em replantar mudas que recebe de vizinhos, como um ato de resistência. Para ela, trabalhar com a fibra da bananeira é um gesto de insistência e de afeto: mesmo diante das dificuldades, ela persiste, porque reconhece naquela fibra não apenas uma matéria-prima, mas também um vínculo afetivo com sua história.

Além da bananeira, Maria Helena utiliza a taboa, extraída de um lago à beira da estrada de sua casa, e a palha do milho, obtida na própria propriedade. Tudo está próximo, tudo vem da terra que a acolhe. Para ela, o ato de colher, preparar e transformar as fibras é tão importante quanto o resultado final: cada etapa exige cuidado, paciência e respeito pelos ciclos da natureza.

Entre a técnica e a memória

Trabalhar com fibras é, para Maria Helena, mais do que criar objetos utilitários: é dar continuidade a histórias que poderiam ter sido apagadas. Cada trança, cada nó e cada ponto guardam as marcas de um caminho coletivo, que atravessa quilombos, aldeias e famílias.

Seus cestos, luminárias, acessórios e experimentações com cores naturais não são apenas belas peças de artesanato: são expressões de identidade, memória e futuro. É por isso que Maria Helena se orgulha de afirmar: “Tudo eu consigo aqui”. Porque o “aqui” não se limita à sua propriedade; o “aqui” é também território, herança e resistência.

Maria Helena é multiplicidade. É artesã que transforma perdas em criação, natureza em arte, silêncio em fala. Suas fibras são pontes entre tempos e mundos – e ao segurar uma de suas peças, é possível sentir que a terra fala, e que, por meio de suas mãos, a ancestralidade segue pulsando.

Texto: Tatiana Laschuk / Fotos: Jefferson Botega

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