Nossa chegada ao Mãos de Palha não começou com perguntas, mas com o registro da colheita. O fotógrafo Jefferson Botega acompanhou o trabalho de Lurdes, a matriarca, e de sua filha Jaqueline, documentando em imagens a força e a delicadeza desse gesto ancestral: colher o trigo, palha a palha, fibra a fibra. Ali, no campo, vimos que a tradição não se preserva apenas pelo trançado, mas também pelo plantio e pela colheita – etapas que carregam tanto esforço quanto afeto.
Um mês depois, nos reunimos na garagem da casa de Lurdes, espaço que funciona como loja, oficina e ponto de encontro, onde três gerações compartilham o ofício: Lurdes, sua filha Jaqueline e sua neta Ângela. Ali, entre fibras secando ao sol, tranças em andamento e peças prontas para venda, testemunhamos a continuidade de um legado que une passado, presente e futuro.
Um saber herdado
O artesanato com a palha de trigo começou com Lurdes, que domina o ciclo completo: plantar, colher, secar, preparar a fibra e trançar. Foi ela quem herdou da avó, Nona Rosalia, as sementes de trigo trazidas da Itália. Essa variedade, preservada ao longo de gerações, difere das lavouras modernas: é mais longa, mais macia e resistente, ideal para o trançado artesanal. O cuidado em cultivar e transmitir esse saber revela não apenas uma prática agrícola, mas a preservação de uma memória cultural e familiar.
A dressa – trança feita da palha – é a base de todo o trabalho. Dona Lurdes conhece cada variação, cada modo de entrelaçar, e passa esse conhecimento à filha e à neta. Jaqueline aprendeu a costurar as tranças para transformá-las em bolsas, chapéus, cestarias e sportas. Ângela, ainda em aprendizado, já conquistou da avó um elogio inesquecível: “Agora a tua dressa dá pra vender.” Mais do que aprovação, essa frase significou pertencimento e continuidade.
Entre tradição e reinvenção
A família não apenas cultiva a tradição, mas a renova. Jaque e Ângela experimentam novas cores, formatos e aplicações, dialogando com demandas contemporâneas sem perder a raiz do ofício. As peças, que antes tinham função estritamente rural, hoje circulam em contextos urbanos e até internacionais: já foram vendidas para Singapura, Itália e Estados Unidos, todas por meio das redes sociais. A internet, nesse caso, torna-se ponte entre o fazer ancestral e o público global.
Além da comercialização, a família promove oficinas, abrindo espaço para que visitantes experimentem o trançado da dressa e compreendam sua complexidade. Esse gesto amplia não só a renda, mas também o alcance do conhecimento, transformando o Mãos de Palha em um lugar de aprendizagem e troca.
Resistir com a palha
O cultivo das sementes antigas enfrenta desafios, sobretudo diante das mudanças climáticas. As variações de temperatura e as chuvas intensas comprometem a lavoura e exigem adaptações. Em 2024, a família antecipou o plantio em quinze dias, colhendo antes do período de chuvas e garantindo maior qualidade da palha. Esse cuidado técnico revela que, além de guardiãs de um saber ancestral, elas são também inovadoras e estrategistas, capazes de dialogar com o presente para garantir a continuidade do ofício.
Mãos que cultivam e criam
No Mãos de Palha, o ofício artesanal é um ciclo completo: da semente ao trançado, do trançado ao objeto, do objeto à vida das pessoas. Cada sporta, cada bolsa, cada cesta carrega o tempo da terra, o gesto paciente das mãos e a força de uma tradição que atravessa gerações.
O trabalho de Lurdes, Jaqueline e Ângela é mais que produção artesanal: é uma forma de manter viva a memória da imigração italiana, de afirmar o protagonismo feminino e de reafirmar a conexão entre cultura, natureza e comunidade.
As mãos que cultivam são as mesmas que criam. E é nesse gesto contínuo que se entrelaçam memória, resistência e futuro.


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