Vera Macedo: mãos que tecem memória, resistência e futuro

Tivemos a honra de ser recebidos no Ateliê Maria Lina, na casa de Vera Macedo, uma mulher de força e sabedoria que carrega em si gerações de histórias.

Ativista negra há mais de 35 anos, Vera é Griô do Movimento Negro Kizumbi, líder e coordenadora do Quilombo Maria Lina, artesã, costureira e pescadora aposentada, e membro do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (COMDIM), onde representa com firmeza o Movimento Negro Kizumbi.

Vera trabalha com a palha da tiririca, uma fibra que não havia sido previamente mapeada pelos pesquisadores. Ainda assim, decidimos incluí-la no trabalho. A tiririca é uma fibra macia e flexível, obtida em ambientes aquáticos. O trabalho artesanal de Vera com essa palha vai além da técnica: é um verdadeiro ritual ancestral. É ela mesma quem busca a tiririca, colhe com cuidado, seca, trata e prepara a fibra para então transformá-la em roupas e objetos carregados de memória.

Sua produção artesanal dá forma a vestimentas inspiradas nas roupas feitas por seus ancestrais – peças criadas para proteger os corpos negros durante as fugas das estâncias, quando era preciso atravessar o mato, a água e a escuridão da noite. Cada ponto, cada dobra de fibra se torna, assim, um ato de resistência e continuidade, carregando no presente a sabedoria de gerações passadas.

Mais do que objetos ou roupas, o trabalho de Vera é uma expressão de identidade e memória. Suas criações guardam histórias silenciadas, transformando o que a terra e a água oferecem em símbolos vivos de resistência cultural. Ao vestir ou contemplar uma de suas peças, é possível sentir a força da ancestralidade que, através de suas mãos, segue pulsando e se renovando.

No ateliê Maria Lina, espaço que guarda com carinho os instrumentos de trabalho, as peças que criou e os saberes que cultiva, Vera compartilha não apenas sua produção, mas também sua trajetória de vida, marcada por luta, afeto e ancestralidade. Cada objeto presente nesse ambiente – uma fibra em processo de secagem, uma ferramenta antiga, uma trança em formação – é testemunho de uma caminhada que atravessa gerações e que se revela no silêncio atento do fazer manual. O ateliê torna-se, assim, um território de memória e criação, onde passado e presente se encontram.

Trabalhar com a palha da tiririca, para Vera, é mais do que um ofício: é um gesto profundo de reconexão. Reconexão com a terra, que oferece a matéria-prima; com a água, que alimenta a planta; com o território, que preserva a história de seu povo; e com o tempo – o tempo de antes, das fugas e resistências, e o tempo de agora, em que esse legado é reafirmado e reatualizado. O gesto de trançar a fibra é também um gesto de cura e de lembrança. É resgatar o que foi silenciado, dar forma ao que foi invisibilizado e transformá-lo em arte, em fala, em presença viva.

Vera Macedo é memória viva. É mulher, é griô, é tecelã de mundos.
E a sua história é um patrimônio que pulsa.

Texto: Tatiana Laschuk

Fotos: Jefferson Botega

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